sexta-feira, 17 de julho de 2015

CRISE DOS SETE ANOS

 
Arte de John William Waterhouse

Você dorme de costas para seu marido ou esposa?

Você é o último a saber do que está acontecendo dentro da própria casa?

Você parece que não tem mais o que dizer?

Você perdeu o interesse em comum com sua companhia?

Você somente é criticado, mesmo quando tenta ajudar?

As aparências não importam mais?

Usa desculpas para evitar discussões e problemas?

Finge que nada está acontecendo?

Talvez você esteja enfrentando a crise dos sete anos de casamento.

Jura que é infeliz, mas eu tenho inveja de você. Você tem um casamento que conseguiu a proeza de atingir sete anos.

Queria estar em seu lugar. Para enfrentar esta crise, você precisou ter antes a sorte de um casamento longo.

Já é complicado um relacionamento durar sete semanas ou sete meses. Alcançou sete anos de intimidade com alguém, dividindo os hábitos e somando as vidas. Não é pouco, não é troco, não jogue fora.

Ouça meu comentário na manhã dessa sexta-feira (17/7), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


quarta-feira, 15 de julho de 2015

FEITIÇO DA GINA

 
                                                                 Arte de Eduardo Nasi

Não se estarei casado ou solteiro na próxima semana, não sei onde estarei morando no próximo ano, não sei se ligarei a máquina de lavar e de secar direto do celular, não sei se me apaixonarei pela voz do computador, não sei o que me espera.

Os tempos são rápidos e provisórios.

O que me acalma diante da enxurrada de notícias, aplicativos solicitando atualização e links abertos é comprar no supermercado um caixinha de palitos Gina e um pacote de Pastelina.

São as únicas embalagens que permanecem iguais desde a minha infância.

Gina e Pastelina não mudaram. Algo não mudou no mundo. Algo segue intocável há quatro décadas.

É como uma casa que não foi destruída no bairro em que nasci.

É como um brinquedo embalado e jamais usado.

Gina e Pastelina são objetos de colecionador que tenho o direito de adquirir semanalmente.

Recordo do tempo em que íamos toda a família para a churrascaria Barranco, e que os palitos serviam para brincar com os meus primos. Quebrávamos cinco Ginas ao meio, juntávamos suas pontas e derramávamos uma gota de água no centro em comum das varetas. Incrivelmente, a madeira absorvia o líquido e começava a inchar. Os palitinhos cada vez mais abertos formavam uma estrela pulsando, uma estrela se agigantando, uma estrela engolindo a mesa.

Só com o cheiro da Pastelina, sou levado de volta para a alegria do intervalo da escola. Equilibrando um copo de guaraná e o pacotinho de massa frita, sentava no terceiro banco de pedra do pátio, meu camarote imutável para assistir as meninas jogando vôlei.

Gina e Pastelina me proíbem de envelhecer. Gritam “estátua” para mim e não me mexo.

É melhor do que chá de melissa: desaparece a enxaqueca, refaz a minha linha de tempo do Facebook, acaba com bloqueio criativo.

Gina e Pastelina resistiram aos layouts modernos, à ânsia de consumismo, às tentativas de se mostrar diferente por fora e apenas por fora.

Desconheço quem inspirou o logotipo da Pastelina. Tampouco muda a minha admiração ter consciência de que a modelo dos artefatos de madeira foi a polonesa Zofia Burk, que depois não conseguiu mais emplacar nenhuma campanha.

Ela será sempre a rainha da minha cozinha: dona de casa feliz e radiante, com seu cabelo de penico dos anos 70, o olhar roubado de Jesus Cristo, a dentição de quem nunca conheceu uma cárie.

Ele será sempre o rei do meu eterno recreio: o feiticeiro narigudo, de fraque, gravata borboleta e cartola, que somente entregará a receita da Pastelina se a Coca-Cola mostrar a sua.






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 15/07/2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

AGUENTE DECLARAÇÕES DE AMOR SEM GRACINHAS

O sarcasmo destrói a sinceridade.

Já fui vítima e já fui algoz.

O homem, principalmente, tem vergonha de se declarar e vive se escondendo em brincadeiras. Tem vergonha de se emocionar e vive mascarando com piadas os momentos próximos das lágrimas.

É perceber que vai chorar ou umedecer os olhos que ele retira uma ironia do fundo de si para escapar ileso da entrega.

Em vez de retribuir uma delicadeza ou entrar no clima romântico, ele vem com uma grosseria para tentar descontrair.

Não faça mais isso, aprendi a não fazer.

É tão difícil ser sincero, leva muito tempo para o outro encontrar força para dizer algo importante, não banalize o encontro com a sua desatenção.

É custoso formular o que talvez nunca tenha sido dito para ninguém, não estrague com o deboche.

Sua namorada pode ter atravessado décadas naqueles minutos para entender um sentimento e partilhar uma verdade.

Relembre seus amores platônicos e doloridos da infância: quantas vezes procurou se declarar para uma menina, as frases subiram até a boca e voltaram ao silêncio? Você deseja que sua companhia passe pelo mesmo sofrimento?

Ninguém é covarde sozinho. Somos covardes porque nos deixam sozinhos com as palavras, não somos ajudados a falar o que nos incomoda.

Apoie a coragem de sua namorada.

Devemos economizar e preservar as confissões de amor. Devemos valorizar e inspirar as confissões de amor.

Temos que diferenciar a hora da ironia da hora de falar sério.

Não desestimule a sinceridade com palhaçadas. Drama pede meia-luz, mãos dadas e olhos nos olhos (o gênero comédia romântica é uma mentira – é só romance, colocaram comédia no nome para forçar o namorado a ir ao cinema).

Não dê motivos para que ela desconfie de seu compromisso – é o que acontece quando reage superficialmente diante de conversas mais profundas.

Fique quieto, parado, ouvindo, sei que você se enxergará emparedado, encurralado, assustado com a queda repentina de testosterona no corpo, pronto para abrir a porta do riso e sair correndo, mas segure a respiração e suporte escutar que você é a pessoa mais importante de alguém, sem baixar a cabeça, sem buscar refúgio no celular, sem nenhuma gracinha.

Serão juras que salvarão o relacionamento quando estiver em crise.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4,  14/07/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18223

CONSELHOS INTRAGÁVEIS

Arte de Umberto Boccioni

Evite conselhos durante a abstinência.  O melhor é andar com protetor de ouvido.

Sempre vem alguém para dizer aquilo que você não precisava ouvir. É um comentário que desmerece o desafio ou menospreza a importância de cada dia longe da dependência.

A tentação recebe o disfarce das pessoas mais próximas.

Contei para um amigo que estava há duas semanas sem fumar, ele me respondeu:

- Não é nada. Só me fale quando completar um mês.

Contei para a minha mãe que parei de fumar, ela nem esperou terminar a frase:

- De novo? Já não acredito.

Contei para uma amiga que parei de fumar, e ela me respondeu:

- Não consigo te imaginar sem cigarro.

Por último, reclamei para a mulher que estava triste por não fumar mais:

- Então seja alegre e volte a fumar.

Fim de vício é como velório: ninguém sabe o que falar.

Ouça meu comentário na manhã dessa terça-feira (14/7), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


domingo, 12 de julho de 2015

CASAL BRIGANDO ESQUECE QUE TEM FILHO


Arte de Lasar Segall


Quando estou numa discussão de relacionamento ainda me pego guri, ainda me pego distraído.

A mulher me pergunta algo simples e objetivo berrando e me perco no ponto de interrogação, somente presto atenção no agudo de seu timbre.

Ela questiona sim ou não, e rastejo indeciso num estado meditativo.

Com uma caneta nas mãos, faço de conta que não é comigo. Já me flagro tirando o canudo, reparando o estado da tinta, me desligo completamente das palavras. Diante da voz levantada, as palavras não são mais comigo, sou inteiro do silêncio.

É um estado de fuga que guardei da infância, no momento em que meus pais brigavam aos gritos.

O palco permanece montado em minha memória: arrumados na sala, eu e os irmãos brincávamos de forte-apache enquanto esperávamos para almoçar.

Tudo ia bem, os cabelos estavam penteados e a mesa posta.

De repente, a porta da frente batia, os lustres balançavam e a paz ia embora.

Alguém saía de casa correndo, talvez o pai, talvez a mãe, e um seguia o outro.

A discrição não frequentava o nosso endereço, envolvia perseguição de carros, latidos desesperados no quintal, abraços histéricos e empurrões confusos.

Descobria que não teria almoço, nem sessão da tarde, muito menos tranquilidade.

A briga dava dois trabalhos: o de explicar aos vizinhos durante toda a semana o que aconteceu e o de acalmar o coração que nunca sabia ao certo o que estava acontecendo.

Eu me abstraía de propósito, recusando determinar se correspondia ao fim do casamento ou uma reiterada tentativa do papai e da mamãe de se entenderem e de serem felizes.

Os filhos desapareciam naquele instante para os pais, eles realmente esqueciam que eram pais. Casal quando briga esquece que tem filhos.

Alheios ao que escutávamos e à nossa posição vulnerável no front de batalha, retornavam para a sala, jogavam objetos nas paredes, soltavam palavrões que jamais poderíamos repetir e se xingavam mutuamente, com energia e disposição demoníacas.

Eu mexia cada vez mais no cocar de meu índio do forte-apache e em sua machadinha marrom. Fingia que não existia, diminuindo de tamanho, até me transformar num boneco e alguém me guardar na caixinha para brincar no dia seguinte.

Fixo na caneta e vejo que não me defendo do medo de gritos, apesar de adulto, apesar da paternidade.

Em vez de escrever qualquer coisa de útil, em vez de pedir socorro, vou desmontando a caneta no meio de uma nova e inesperada gritaria doméstica.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.32
Porto Alegre (RS),  12/07 /2015 Edição 18224

sexta-feira, 10 de julho de 2015

SE ARREPENDIMENTO MATASSE...

Arte de Kandinsky

Ao colocar em ordem sua biblioteca ou guarda-roupa, veja se terá condições de terminar a tarefa.

Depende de tempo livre, de férias, de folga. Não tente fazer no meio da semana, de qualquer jeito.

Não seja levado pela passionalidade que é tirar tudo do lugar para ajeitar pouco a pouco.

O chão estará cheio de pilhas de livros e não poderá caminhar livremente pela casa durante semanas.

A cama estará carregada de roupas e não haverá nem espaço para dormir.

Sua vontade é de chorar. Começou algo que não imaginava que ocuparia tanto tempo.

Ficou projetando que seria fácil e rápido e agora se arrepende amargamente de seu impulso.

Não tem como finalizar a arrumação, assim como é tarde para colocar os objetos de volta.

Piorou o que estava ruim. Já quer jogar fora seus livros prediletos ou as camisas novas somente para não precisar dobrar mais ou procurar espaço nas estantes apertadas.

Às vezes, para não enlouquecermos, a bagunça é o nosso anjo da guarda.

Ouça o comentário na manhã desta sexta-feira (10/07), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A CHAVE DE MINHA PERSONALIDADE

                                                                               Arte de Eduardo Nasi

Nunca reparei na porta da residência de minha mãe e da minha infância. Por mais que tenha atravessado a sua fronteira milhares de vezes. Por mais que tenha girado a chave em sua fechadura. Por mais que tenha mateado em sua soleira. Por mais que tenha trocado os adereços de bem-vindo.

Ela é de ferro, pesada, lembrando um cofre, porém é toda constituída de vidro, com a leveza da armação de uma janela.

Arranha o chão, só que não pode ser batida com força senão quebra a vidraça.

Com uma base fixa e instransponível, mas absolutamente vulnerável por cima.

É forte e fraca ao mesmo tempo. Uma pedrinha arremessada já arrebenta sua estrutura. Só que ela tem o peso de um tanque de guerra.

A porta sou eu: incoerente, contraditório, instável, que dissimula suas feridas e ferocidades.

A porta é a minha família. O espírito de minha família, que diz sim com facilidade para depois complicar, nada é transparente em suas reuniões e encontros, há um quê para ser decifrado nas frases mais bobas, uma segunda intenção latejando nos discursos mais banais.

Papear com a mãe é completar palavras cruzadas, discutir com o pai é resolver criptogramas, eles não expressam o que falam.

Falar é disfarçar o que se pretende. Falar é omitir. Falar é guardar.

Como se fosse falta de educação dizer aquilo que se quer. Fui ensinado a não entregar as minhas vontades, pois a facilidade seria ofensiva, sinal de que somos oferecidos e fracos.

A educação de ferro esconde o nosso desejo de vidro.

Não digo que estou com sede. Antecipo a previsão meteorológica, destaco o tempo infernal, aviso que não paro de suar.

Não sou jamais direto.  Espero que alguém me ofereça um copo d’ água. Não peço o copo d’água.

O meu corpo e as minhas palavras têm confissões sempre diferentes.

Eu embaraço todos que estão próximos. Poucos captam as minhas reais intenções, com dificuldade de definir se converso sério ou debocho.

Para alguns, sou um sedutor. Para outros, sou profundo. Sou apenas um homem confuso. Como a porta de casa, indecisa entre o presídio e a estufa de flores.







Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira 08/07/2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

CONFIAR É AMAR


Amar e confiar são a mesma coisa.

Demorei a perceber. Por isso confiamos em pouquíssimas pessoas em nossa vida.

E podemos passar uma vida inteira sem confiar em ninguém.

É tão difícil confiar quanto amar. Tão raro.

A confiança e o amor são conquistados. Exigem tempo, observação, sinceridade, lealdade, soma de atitudes.

Não é porque é sua mãe ou seu pai ou seu irmão que você vai confiar. Família não traz garantias.

Confiar não é genético. Confiar é intimidade recompensada. Confiar é recíproco. É quando damos e recebemos simultaneamente. Confiar é contar um segredo e ver, já no finzinho de nossa história, que nunca foi revelado.

É uma previdência privada de nossos mistérios. É quando as ações comprovam as palavras.

Confiar não é para os apressados, mas representa o retorno de uma longa viagem mental. É a velhice dos nossos hábitos, a velhice das nossas frases, a velhice de nossos juramentos. É quando um gesto recebeu a proteção do silêncio.

Quando alguém confia sem conhecer, na verdade, está esperando confiar. É uma aposta para tornar mais fácil a convivência.

Demonstramos despojamento no início das relações, mas somos complexos no decorrer da cumplicidade. Entregamos a chave da nossa casa para perguntar todo dia se o outro não extraviou. E perguntar é desconfiar.

No máximo, confiamos desconfiando. Com o pé atrás e um olho lá na frente.

Confiamos com medo de confiar, sofrendo o receio de ser enganado, tremendo por depender de alguém, temendo pela nossa vulnerabilidade. Assim como o amor.

Falamos que amamos antes de amar, para nos convencer de que é amor.

Falamos que confiamos antes de confiar, para nos convencer de que é amizade.

Confiar é se desiludir, é se frustrar, é se decepcionar. Assim como o amor.

É criar as mais altas expectativas e depois se acomodar com o que é possível. Como o amor.

É aparecer com todas as certezas do mundo de que aquela é a pessoa certa e descobrir, aos poucos, que ela mente e pensa torto como você.

Confiar dói. Como o amor. Ainda mais quando a confiança é quebrada e não há como restaurá-la com discussões, colá-la com desculpas, consertá-la com declarações grandiloquentes.

Confiar é ter uma relação única com alguém, inimitável, e não dividi-la com um terceiro. É o contrário da falsidade, que significa ser igual com todos fingindo diferença e exclusividade.

Deixar de confiar é deixar de amar - perde-se junto a admiração, o alumbramento e o respeito incondicional. Deve-se desamar para amar de novo.




Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 6,  07/07/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18216

TRISTE DE QUEM FICA FELIZ

Arte de Louis Boulanger

Se você está feliz numa segunda-feira, você não tem vida pessoal. Está sem ninguém ou na maior fossa dentro de um casamento. O desespero é o mínimo esperado por aquela pessoa que é normal.
Não é recomendado senso de humor numa segunda-feira. Não se pode chegar no trabalho comemorando. Euforia de manhã cedo é ultrajante.

Segunda-feira é dia de luto da alegria, de enterro de samba. Resta uma semana inteira pela frente e o final de semana cheio de aventura ficou para trás. Não há motivos para mostrar os dentes.

Assim como não se deve pisar no trabalho entusiasmado numa terça-feira. É provar que você gosta mais do emprego do que do descanso. Atestado de encalhado, despertará pena dos colegas: - Que vida triste que ele tem para rir numa terça-feira, aposto que odeia sábado e domingo.

Pode começar a sorrir, discretamente, na quarta-feira. E a gargalhar na quinta-feira. Na sexta-feira, seja só contentamento. Cumprimente alto todos e diga que a semana passou rápido, mas o que precisa mesmo é de boas férias.

Ouça o comentário na manhã desta terça-feira (07/07), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, com Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 6 de julho de 2015

INVASORES



– Já que ele não vai ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém.

Assim também esquece que ele jamais olhará novamente para sua cara. Tentar destruir a próxima relação de seu ex ou flerte postando mensagens ofensivas e insinuações na web ou até mesmo mandando prints de conversas antigas é atitude de recalcada. Desceu sem volta o seu espírito para o inferno mais remoto. Não há depois como salvar o respeito e a reputação. É gesto de megera, de bruxa, de burra, de psicopata, onde os fins justificam os meios.

Pode estar desesperada, louca, histérica, mas até o jogo da sedução é constituído de regras e etiqueta, não é um vale-tudo emocional, o que não é reciproco deixa de vigorar como realidade, cabe respeitar a decisão de sua companhia, mesmo que um dia tenha recebido juras. Nada de destituir a liberdade do outro, que tem todo o direito de reavaliar o trajeto, não querer o relacionamento e trocar de opinião. Nada de bancar a hacker e entrar em contas alheias em nome de uma dor-de-cotovelo.

Depois de perder o amor, é muito fácil perder o amor próprio e despencar para a grosseria.

Não é não, o não está a léguas de significar um charme, não é para insistir se não existe abertura, não é uma provocação, um desafio e uma oportunidade para provar o seu valor.

Se ele não quer ficar junto, não se rebaixe e, o mais grave, não busque rebaixar todo mundo. Não arraste inocentes para seu túmulo. Se está infeliz, não espalhe a infelicidade. Aceite a derrota e o fracasso com humildade. Não procure sofrer acompanhando a novela do amor recente nas redes sociais. Não fique investigando o perfil da nova namorada. Não faça comparações e conclusões distorcidas, não crie tumulto e fakes. Policial amador é criminoso.

Ele não quis permanecer a seu lado quando apresentou seu melhor, não é com o pior que mudará seu conceito.

Compreensão e respeito são capazes de trazer alguém de volta, jamais mentira e invasão de privacidade. Isso serve para homens e mulheres.

Não provoque o desprezo. O desprezo é a paixão azedando, vinho virando vinagre, sem rótulo e safra para ser lembrado.

Quando o sentimento acaba por uma das partes, é necessário ser amigo do tempo. O tempo cordial é a única esperança que resta.



Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.32
Porto Alegre (RS),  05/07 /2015 Edição 18215