quarta-feira, 15 de abril de 2015

CAIXÃO PEQUENO


Arte de Gino Severini

Ele me confidenciou um segredo dentro do bar 512, na Cidade Baixa, que sua ex nunca soube.

Antes das férias, a então namorada comentou que passou diante da vitrine de uma joalheria e quase escolheu alianças para renovar os votos da convivência. Ele transformou o quase em certeza. Só que estava magoado com ela, porque descobriu que sua companhia mentira durante muito tempo, logo ela que dizia não admitir deslealdade olhando nos olhos, logo ela que argumentava que mentir era pior do que agredir fisicamente.

Na véspera da viagem, ele comprou um anel de noivado vintage, de ouro branco 18k, cravejado de pedras. Experimentou no seu menor dedo, o que tinha exatamente o tamanho do dedo dela. Pois temos, entre os nossos dedos, o dedo de nossa mulher.

Demonstrava confiança que, no descanso alegre e romântico, seu par seria arrebatado pela sinceridade e corrigiria seus erros. Sem nenhuma pergunta. Sem nenhuma pressão.

Acreditava que era uma fase ruim, acreditava que ela poderia mudar, que poderia nascer de novo na paixão (a paixão é o renascimento constante do amor).

Ele carregou a caixinha preta aveludada em sua mala, escondida no forro interno. Esperava a chance de oferecer a joia e consagrar a sinceridade.

Quando ela ensaiava declarações, quando puxava o fio da memória, ele tentava criar um jeito de pegar o anel e disfarçar sua existência. Saía por um minuto e já voltava. Nunca foi tanto ao banheiro imaginário.


Carregou o anel no bolso da calça, do casaco, na sacola de praia, na capinha do celular, em todos os esconderijos, para que ela jamais descobrisse.

Sofro ao imaginar seu desgaste prestando atenção aos desdobramentos dos diálogos, soletrando a boca de sua mulher a cada frase, tentando se antecipar ao momento da confissão. Quantas vezes ele buscou o presente, eufórico, e guardou de novo, abatido? Quantas noites ele não dormiu sonhando com a reparação? Quantas vezes ele acordou, esperançoso, e se despediu do mar, amargurado? Quantas vezes pescou a sereia da transformação e não obteve o brilho da verdade?

Ao longo do verão, ele rezava em silêncio. Simplesmente porque era otimista e a amava demais. Era otimista porque a amava demais.

Mas não aconteceu um final feliz e, pior, ela mentiu de novo. E jamais se retratou. E jamais pediu desculpa.

O anel ficou como uma pérola confinada na ostra e levada para longe pela maré do infortúnio.

Não era um porta-joias, e sim um caixão. Escuro como um caixão. Lacrado como um caixão.

Um caixão pequeno para o amor imenso daquele homem.


Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.36
Porto Alegre (RS),  12/04 /2015 Edição N°18130

BELEZA INCURÁVEL

Arte de Óscar Domínguez

Muito fácil definir se uma mulher realmente é bonita. Ela não consegue fazer careta. Ela fracassa na careta. Ela é incompetente para o ridículo.

Não tem jeito de ficar feia. Jamais se torna caricatura.

Ela tenta assustar, e somente seduz mais.

Ela tira um Selfie para zombar de si e ninguém entende.

Ela busca se avacalhar, e somente traz um novo ângulo para admirá-la.

Pretende provocar riso e gera mais suspiros.

Range os dentes, fingi cuspir, come a paleta de ovelha com as mãos, mas nenhuma cena é nojenta, parece cada vez mais uma mulher de atitude.

Ela inventa beiço, mostra a língua, estica os olhos, e continua maravilhosa. Continua atraente. Continua poderosa. Nunca deixa de ser ela.

Existem tipos fatais, incorrigíveis, de uma beleza incurável.

São mulheres que se acham, e, por isso, transbordam.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (10/4), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

O MEDO DE PERDER ALGUÉM

Arte de Eduardo Nasi

Além do velho do saco, que poderia aparecer tocando a campainha se a gente não raspasse o prato ou se não dormisse no horário, havia o medo permanente da carrocinha, que levaria meu cachorro embora.

A esquina era ameaça do recolhimento dos cães.

Meu cachorro não poderia permanecer sozinho por aí, passear à toa, senão seria posto num furgão com cela, algemado e jamais o teria de volta.

A carrocinha animou meus pesadelos de pequeno. Eu suava frio, arregalava os olhos, porque os pais diziam que o motorista não tinha compaixão: “animal andando sozinho, carregava”. Ele nem procurava descobrir onde morava, não investigava seu paradeiro. E a mãe ainda vinha com o terrorismo de que os cachorros virariam sabão.

Sofria com a ameaça constante dos caçadores diabólicos das mascotes pela madrugada.

Preparei coleira para o cachorrinho, com endereço e telefone. Dava banho todo dia para que não parecesse sujo e anônimo. Explicava o caminho de casa, sempre largando ração no jardim para fixar o lugar.

Não deixava sair de perto. Observava quem abria o portão para que logo fechasse. Eu me arrepiava com cada visita e a possibilidade da porta encostada.

Protegia meu vira-lata mais do que brincava com ele.

É da infância o meu medo de perder alguém.

Carrego dentro de mim uma sensação de inesgotável vigília. Os efeitos colaterais das histórias de pequeno não terminaram na adolescência, seguiram adiante, atingiram o batimento cardíaco de homem feito.

Troquei apenas a carrocinha por outro nome. Mas não confio na rua. Dependo da proximidade para cuidar.

Peno quando meus familiares demoram a regressar. Prefiro estar longe a ficar em casa esperando – é menos tensão.

Todos os amores foram cachorros inofensivos, indefesos, vulneráveis a uma emboscada. Como se não pudessem se defender, como se não pudessem contornar as dificuldades, como se viver fosse pedir ajuda.

Não sei explicar exatamente. Fiquei sequelado pela contundência das advertências infantis.

A cada despedida de namoro, por exemplo, emergia a angústia: de que modo ela vai se cuidar sozinha? Vai dar conta dos perigos, recusar quem possa lhe fazer mal?

E perguntava se estava bem, se precisava de alguma coisa, telefonava e não me mantinha indiferente ou independente com a separação. Ainda carecia de notícias. Não me desligava completamente, até sentir que ela estava a salvo. Mas somente estaria a salvo comigo, na minha loucura atrapalhada de onipotência.

Talvez a carrocinha seja o meu pânico de virar sabão. Um herói sem missão, um salvador desempregado. Que eu termine esquecido, com o fim da espuma da raiva, e não seja procurado de volta.





Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
08/04/2015


UM PROFESSOR

Arte de Roger de La Fresnaye

A rotina gera acasos surpreendentes, nunca se tem a clareza do motivo de conhecer alguém, mas há um fio que liga as pessoas. Estão unidas por alguma verdade ou mentira. É descobrir com o tempo.

Nas últimas semanas, incrivelmente conheci quatro jovens, em diferentes situações, na faixa dos 19 aos 25 anos, bonitas, românticas, crédulas, e todas sofrendo por um amor que não deu certo.

A coincidência é que o algoz era sempre o mesmo. Um único sujeito. Não qualquer sujeito. Ele tinha sido professor das quatro jovens. Aproximava-se da aluna, entre tantas no auditório lotado, mostrava-se impressionado com o desempenho e inteligência, adicionava no Facebook, convidava para um café e usava a idolatria do quadro-negro e do microfone para seduzi-las.

Conversa boa, simpático, com preferências culturais consolidadas, mantinha casos com suas protegidas, sem que uma nunca soubesse da outra. Empilhava relacionamentos secretos em seu apartamento.

Ardorosas fãs de sua didática, sentiam-se eleitas pelo seu professor. A escolhida. Depois de um período, que variava de cinco a nove meses, ele se desligava das histórias e desaparecia. Bloqueava o nome nas redes sociais e prosseguia com sua caçada selvagem por novas presas.

Suas turmas transformaram-se num infeliz recrutamento de esposa e de amante. Ele chama para sair, experimenta, vê se gosta e serve, e, dependendo, até convida para morar junto.

Como não é bonito, suas candidatas deduziam exclusividade. Cada uma delas jurava que ninguém mais o queria e se cegavam para as ambiguidades e incoerências.

Nenhuma delas fez reclamação, denúncia, nada, pois continuam amando-o, dependentes de sua eterna aprovação. Ele mantém suas vítimas caladas pela esperança de um reatamento. Baseou sua vida inteira no ato serial de transar com alunas, quando estava casado, noivo ou namorando. Não foi uma exceção, exceção se perdoa, porém consolidou um método intermitente de conquista.

Há um problema sério de ética ao empregar a admiração da sala de aula para interesses pessoais. Não é pouca coisa. O professor não poderia se exceder no exercício de seu papel. É abusar de sua autoridade, tem uma influência psicológica que supera barreiras de idade e de geração.

Não há como dizer não a um ídolo, opor-se a um tutor. É o responsável pelo aluno, pago para cuidar, definido pela instituição de ensino a orientar e promover escolhas arrazoadas. Sua posição corresponde à de um segundo pai, e não poderia destinar seu poder para quem não é capaz de se defender. Significa evidente caso de assédio moral, uma desproporcional covardia. Ainda mais quando se trata de adolescentes, imaturas, com sua trajetória amorosa começando, sensualizadas pelo conhecimento, que se deslumbram pela possibilidade de estar ao lado de quem admiram e de quem era para ser um exemplo de sucesso.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 6, 07/04/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18125

O QUE NUNCA FALTARÁ

Arte de William Morris

Não posso prometer estar feliz todo dia. Não mando no meu estado de espírito. Nem sempre acordarei de bom humor. Não tenho como antecipar  disposição. Nem há como garantir que terei vontade de sair no final de semana. Não sei como estarei amanhã. Não farei fiado de risadas depois do trabalho. Não existe como me prevenir da irritação, do cansaço, da falta de esperança.

Posso ser chato, pessimista, uma péssima companhia.

Precisa entender que nem sempre estarei alegre, mas nunca deixarei de ser agradecido. Agradecido por você estar comigo, por ser seu.

Jamais faltará agradecimento de minha parte. Agradecido mesmo quando estou triste. Agradecido porque você me torna melhor mesmo quando estou na pior.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (7/4), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


terça-feira, 14 de abril de 2015

PAIDRINHOS

Arte de Théodore Chassériau

Não valorizamos o papel de padrinhos dos filhos.

Às vezes, os pais escolhem sem pensar, para beneficiar um momento ou quem tem mais condições e pode dar melhores presentes. Às vezes, os pais pensam demais, e a homenagem atende a uma política para contentar insatisfeitos e invejosos e ajeitar crises de poder.

Ser padrinho não era para ser tratado como um CC da família.

O que adianta nomear padrinhos que não aparecem, que oferecem colo durante o batismo, tiram fotos e nunca mais?

Os padrinhos não podem ser menosprezados. Têm uma função importante de mostrar quem são os pais. Têm a missão de proteger o amor dos filhos pelos pais, de inspirar os filhos a amarem os pais.

São cuidadores importantes. São os melhores amigos dos pais, e ninguém mais. Estão naturalmente escolhidos.

Com quem você deixaria o filho se precisar sair? Em que você realmente confia? Estes são os padrinhos.

Não é somente ajudar no enxoval, mas estar presente com conselhos vida afora.

Os padrinhos de meu nascimento eram meus avós paternos, que já morreram. Saudade deles! Acho que padrinho também poderia ter suplente. Meu posto está vago, alguém se habilita?

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (3/4), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

MEU SONHO É CASAR NA IGREJA

Arte de Frédéric Soulacroix

Sou sério, assumo minhas decisões, não sou inconsequente. Sofro porque sou sério. A falta de seriedade traz a leviandade, não é o meu exemplo.

Não há maior loucura do que casar-se com consciência de que se está casando, não há maior loucura do que a responsabilidade, do que desejar o casamento e segurar um projeto com os dentes e as palavras, por mais que a pressa crie desconfiança.

Nunca me casei na igreja, este é o meu sonho. Eu me guardo para este sonho. Eu luto por este sonho.

Fazer sem pensar é inconsequência. Fazer pensando é compromisso. Eu me comprometo comigo.

Penso rápido, mas penso. Penso com devoção. Ideias guardadas apenas envelhecem, não são como o vinho, não melhoram com os anos. Realizo enquanto tenho condições de realizar, ainda que imperfeito. Não adianta se conscientizar dos atos e do que seria melhor tarde demais. O que vejo de gente se arrependendo quando não pode mais consertar nada. O perdão se come quente, com o prato fumegando.

Não agirei bêbado e colocarei a culpa na bebida. Não agirei desesperado e colocarei a culpa na carência. Agirei porque quis. Enquanto é hora.

Se errei, se não deu certo, fui eu mesmo que escolhi o meu destino. O destino é meu de qualquer jeito, acertando e falhando.

Se fui enganado, se fui desamado, era um risco que corria. Minha vida não é comprada, não ganharei nenhuma luta por antecedência.

Pugilista ou poeta não pode reclamar de sangrar e apanhar. Não pode lamentar os hematomas, não pode protestar por injustiça, não pode praguejar o ringue.

É da minha natureza confiar no amor e confiar mesmo depois que a pessoa já provou o contrário. E confiar de novo e confiar mais uma vez diante da repetição do erro até que o outro aprenda o que é confiança.

A fragilidade é fortaleza. A vulnerabilidade é lealdade.

Quando o destino não me ajuda, fecho a guarda e sigo pela contagem dos pontos. Não abandono o meu coração.

O sofrimento é meu e também é parte da paixão. Não tenho como não sofrer quando me entrego. Não sei o que minha companhia é capaz de oferecer.

Garanto minhas intenções, mostro quem sou desde o início. Não encampo propaganda enganosa, ninguém descobrirá alguém diferente dentro de mim daqui a um tempo.

Sou monótono de tão passional, sou previsível de tão disposto, pois não mudo minha intensidade.

Caráter é como falamos a verdade mesmo quando não nos beneficia.

Ao morar junto em três dias ou três meses, estou sabendo que será por toda a vida. É o que espero até o último beijo. Ou até a consagração do altar.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 31/03/2015
Porto Alegre (RS), Edição N°
18118

LIÇÃO DE PÁSCOA EM FAMÍLIA

Arte de Fortunato Depero

Já tive essa experiência e me ferrei.

Quando uma namorada estava passando por dificuldades e a situação saiu do controle, pedi apoio para sua família.

Expliquei o que estava acontecendo, o quanto ela estava perdida e confusa, o quanto ela mentia e se escondia da realidade, o quanto necessitava de quem amava.

Sabe o que aconteceu?

A família dela ficou contra mim. Isso que sempre fui bom.

Em vez de ajudar a filha, a família acabou me condenando, que eu era o mentiroso, o louco, que deveria me afastar, chegou a me ameaçar de morte. De uma hora para outra, eu não prestava.

Incrível como as famílias fazem vista grossa para os problemas de seus filhos. Negam a realidade. Por intolerância ou medo. Para não se incomodarem. Para não enfrentar mudanças e conversas sérias.

E demonizam qualquer crítica que venha de fora. Seja da escola, seja do trabalho, seja do namorado.

Apesar das provas esfregadas na cara, nunca é o filho que está errado, é sempre o mundo.

O filho sempre tem razão, sempre é uma vítima, um coitado, jamais pisa na bola.

Defender nem sempre é proteger. Não é dizer amém e acobertar os erros, mas perguntar, desconfiar, procurar a verdade. 

Não pense que a família do outro é sua. Nunca é.

Ouça o comentário na manhã de terça-feira (31/3), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 13 de abril de 2015

PELA PONTA DOS DEDOS

Arte de Tomie Ohtake

Quando ando de mãos dadas com minha mulher, pode sair de perto, que não vou me separar. Até chegar ao destino. Nem tente nos furar, nos atravessar, pedir passagem na contramão.

Dá azar desfazer o enlace e deixar um outro caminhante ganhar a preferência.

É como piloto de Fórmula 1 numa curva, sem chance de ultrapassagem.

Terá a obrigação de contornar o casal, de se encolher no canto, de se esquivar.

Coçamos o rosto de mãos dadas. Apontamos o caminho de mãos dadas. Não soltamos as mãos.

Somos algemados pela aliança.

Não procure um espaço no meio da gente. Não ouse nos apartar nem por alguns instantes.

Não há brecha. Somos inteiros, indivisíveis.

Quando andamos de mãos dadas, não somos dois, somos um só. Um só segurando a nossa vida pelas pontas dos dedos.

Ouça o comentário na manhã de terça-feira (24/3), na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

O CALÇO DA MESA



É muita sorte encontrar uma mesa manca no restaurante. Festejo o achado, ainda mais se estou acompanhado de minha mulher.

Não mudo de lugar, não peço ajuda do garçom, faço questão de sentar e apoiar os braços, com todo o meu peso, para determinar a inclinação. É sempre uma oportunidade para impressionar e mostrar para minha companhia que ajusto desequilíbrios e desafio desarmonias.

O perfeccionismo mata a cumplicidade. Casais se separam por intransigências mínimas acumuladas pelo tempo e nunca ditas.

Vejo a mesa manca como uma maneira sedutora de dar um recado: a imperfeição não me incomoda, conserto o mundo, estou disposto a enfrentar os altos e baixos de um relacionamento.

É uma demonstração de simplicidade diante dos problemas e também de compaixão pelos objetos quebrados.

A mesa manca revela o cuidado cavalheiresco do homem. É uma chance de expor suas verdadeiras pretensões românticas.

Há um toque óbvio de safadeza de minha parte ao usar poesia para passar uma mensagem. Aceito, mas seria absoluta ausência de sinceridade negar o meu dom. Um poeta não pode deixar uma mesa sofrendo em silêncio. É negligência. Como um médico que se recusa a atender um socorro durante sua folga.

Não reclamo, não sinalizo desconforto, não arredo o pé dali, costume de quem não pretende se incomodar sob alegação de que está pagando a conta.

Logo que assumo minha posição, já brinco:

- A mesa é uma mulher vaidosa e quebrou seu salto. Vamos ajudá-la a andar?

Com desinteresse ensaiado, tomo um guardanapo e enrolo a medida exata para formar um calço. Tenho o olhar clínico de um marceneiro, de um engenheiro das resmas de papel. Com uma rápida mirada, sei quantas dobras são necessárias para conter o desnível.

Minha esposa fica comovida e surpreendida com o gesto, relaxa mais comigo, percebe que pode estragar e não será abandonada, que pode enlouquecer e não será banida, que pode adoecer e será amparada e protegida.




Publicado na Revista Isto É Gente
Edição Bimestral
Março 2015
Ano 15 Número 717
São Paulo (SP)