terça-feira, 19 de agosto de 2014

CEBOLÃO E ESCAPULÁRIO

Arte de Max Ernst

Amo ganhar presente.

Finjo que não, mas amo ganhar presente.

Digo que não precisava, mas amo ganhar presente.

O presente de minha preferência é o usado, nenhuma novidade ou lançamento.

É receber algo de precioso do outro. Algo que o outro usava.

É uma herança em vida. É uma partilha em vida. É desafiar a morte distribuindo a própria existência.

Pode ser um anel, um livro, um casaco.

Não há maior demonstração de amor do que subtrair um objeto de seu cotidiano para premiar um amigo.

É repassar, além da lembrança, o nosso estilo.

É repassar, além da homenagem, a nossa estima.

Diferente daquele que compra um novo para não emprestar, é dar o que é seu, pois encontramos quem nos representa, encontramos a nossa extensão, encontramos quem cuidará de nossa fortuna simbólica como se fosse a gente. É atravessar o espelho muito mais do que uma porta.

Recebi de meu pai um cebolão. Um relógio antigo, azul fosco, com pulseira de metal, de marca Technos. Fui descobrir depois que era do avô, e que a peça foi repassada de geração a geração.

Tinha 12 anos. Ele tirou de repente da mão esquerda no meio do almoço. Mal repousou em meu braço magrela: enorme, pesado, brilhante. Mais parecia um relógio de parede, um cuco do pulso.

Lembro que fiquei tão feliz que fui jogar futebol naquela tarde com o bambolê das horas balançando em meu pulso. Talvez tenha confundido com uma braçadeira de capitão.

Meu pai, quando me ofereceu o que mais gostava de presente, estava afirmando:

– Tome, seu tempo é meu tempo. Você me continua. Você me segue.

Ele não alcançava apenas o relógio, e sim seu tempo. O tempo de suas convicções. O tempo de suas palavras. O tempo de suas recordações.

Carrego o relógio paterno com indisfarçável orgulho, assim como o escapulário de minha mãe.

Ela colocou em meu pescoço quando me formei em Jornalismo, corrente de oração que foi da avó e da bisavó. Há o rosto de Cristo num coração em chamas. É um pouco assustador, como tudo que envolve a fé.

É curioso concluir que o pai quis me dar seu tempo e a mãe quis me dar seu Deus.

O primeiro preocupado com meu futuro e a segunda preocupada com a minha salvação.

Até hoje meu pai sempre diz que pensa em mim e minha mãe sempre diz que reza por mim.

Relógio e escapulário formam minha família no meu corpo.

Nem somente casais têm alianças, mas também pais e filhos.






Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 19/8/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17895

A VERDADEIRA JANELA

Arte de Mimi Parent

Quando o destino fecha uma porta, temos o costume de ajudar o azar e dar mais uma volta na chave. Terminamos nos trancando ainda mais. Aproveitamos para nos isolar ainda mais.

Entramos no modo conspiratório: o mundo está contra nós.

A paranoia é o mel para atrair coisas ruins.

Mas poderia ser diferente.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir o vestido da esposa.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir uma garrafa de vinho.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir um livro.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir uma lata de leite condensado.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir uma amizade.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir nossas gavetas e arrumar a bagunça.

Quando o destino fecha uma porta, poderíamos abrir a cabeça e parar de culpar o destino.

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (19/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:


ESTÁ FERRADO: ELA SABE DE TUDO

Arte de Richard Hamilton

Homem finge que presta atenção, já a mulher finge que não presta atenção.

Ela grava tudo o que está acontecendo.

Não precisa de câmera pela casa se você está casado.

Sua companhia não depõe as armas, não descansa os ouvidos, não perde uma conversa.

Ela lhe cuida mesmo quando é indiferente, ela lhe observa mesmo quando vira as costas, ela lhe ama mesmo quando parece não amar.

Homem realiza uma tarefa de cada vez, mulher jamais se contenta com uma tarefa.

Na aula de yoga, ela estará se alongando perfeitamente, cantando o mantra, respirando como um monge e também conferindo o estado de suas unhas, qual brecha marcará a manicure, o que almoçará, o que falta entregar do trabalho. Homem preocupado não dá conta nem de sua cãibra.

Descobrirá sua onipotência auditiva na discussão de relacionamento.

Na briga, ela lembrará o que você jurava que passou em branco. Trará o que você tinha certeza de que ela não percebeu. Comentará o que você confiava que não tinha sido registrado.

Homem acredita na impunidade de seus atos. Se aquilo não foi dito no calor da hora, então está livre do julgamento. Que nada! Não existe prescrição de crime no mundo feminino. Ainda que demore meses, anos, décadas, um dia ela vai pedir explicações.

Toda esposa é a justiça encarnada.

Se ela não falou no ato não significa que não viu, somente não quis falar.

Guardará a cena para devolver no momento certo. Seu hábito não é desmascarar uma mentira, porém preparar o flagrante.

Pode suar frio, ela sabe. Pode treinar no espelho, ela sabe. Pode forjar álibis, ela sabe. Pode ensaiar com os amigos, ela sabe. Pode esperar que ela sabe.

Mulher controla os detalhes, as palavras, revisa as frases, testa coerência e continuidade do seu raciocínio em minutos, checa seus antecedentes, cruza dados e fotos, verifica suas pequenas mudanças de comportamento, compara situações e respostas do histórico da relação.

Ela vem com um aplicativo da Polícia Federal a mais no seu DNA.

Se está distraída, esteja convicto de que está disfarçando.

Homem simula que escuta, pega a última frase que escutou e improvisa. Mulher faz o maior dos esforços para se mostrar desinteressada. Sua sensibilidade não sossega um minuto. É uma capacidade monstruosa e maravilhosa de nunca se ausentar.

É pior do que escoteiro: sempre alerta. É evidente que sua concentração absoluta tem efeitos colaterais: o estresse, a irritabilidade, as longas enxaquecas. Mas são consequências naturais para quem fica ligada dia e noite nas movimentações do amor.

Não tem como enganar uma mulher. A única chance é ela se enganar por vontade própria.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 17/8/2014 Edição N°17893

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

NÃO ACHEI GRAÇA

Arte de Umberto Boccioni

Mulher desconfia de homem que tem senso de humor.

Ela diz que prefere os engraçados, mas é mentira.

Homem que responde rindo qualquer desconfiança já é visto como canalha.

Homem que não quer discutir já é visto como insensível.

Homem que faz graça de qualquer coisa já é visto como mentiroso.

Homem que não guarda ressentimento já é visto como esquecido.

Homem que acorda faceiro e dorme de bem com a vida já é visto como um bobo.

Mulher gosta de homens sérios. Homens de cara amarrada. Homens retos, diretos, objetivos, sem verdades pela metade e histórias inacreditáveis.

Confunde a alegria masculina com criancice ou esperteza.

Diante do riso e das brincadeiras a toda hora, ou acredita que ele é infantil ou um sedutor desinteressado no relacionamento.

Ela prefere que olhe nos olhos, preste atenção, participe da conversa sem nenhuma piada.

O que ela ainda não descobriu é que não existem homens sérios.

No máximo, eles andam disfarçados por amor.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (15/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:



A BOCA QUE ENTOA O BERÇO

Arte de Eduardo Nasi

Quando uma mulher demora a ser mãe tem que enfrentar a contingência de perder todos os nomes que desejava para seu filho.

É passar dos 35 anos que os irmãos e os amigos acabam batizando suas crianças com o nome que ela desejava. Será a tia solteirona do cartório.

Ou porque ela inventou de responder qual o nome que gostava, de tanto que os conhecidos perguntavam se já sabia como se chamaria, ou porque ela simplesmente teve azar.

Não existe ainda um copyright de berçário, muito menos um registro de preferência na Biblioteca Nacional.

O sobrinho terá o nome do seu filho pretendido, o afilhado terá o nome sonhado e assim por diante.

Se ela manter sua posição, a família vai virar monarquia e papado: Pedro II, Francisco II, Elizabete II.

Se ela teimar com sua ideia inicial, será criticada pela falta de criatividade — quando não é acusada de invejosa e ciumenta.

A frustração é imensa. Como um vice-presidente assumir a presidência, como um suplente de senador assumir o mandato.

Tenho certeza que muitos nomes esquisitos são de mães desesperadas diante da repentina subtração de suas vontades.

Está deitada no hospital, prestes a fazer o parto, a tevê ligada e cria um nome do nada, da pronúncia, da tradução google das ruas, somente para não sofrer o risco de ser copiada.

Daí nascem “Comigo”, “Cantinho”, “Disney”, “Esparadrapo”, “Ilegível”, “Inelegível”, “Justiça”, “Marciano”, “Pacífico”…

Daí nascem Valdisnei, Uóxiton, Princesadaiana.

Já é nervoso estabelecer um consenso com o pai. Na maioria das vezes, na busca diplomática para agradar a ambos e não provocar divergências, resultam nomes compostos paradoxais como Abelardo Francisco ou nomes hermafroditas como José Maria ou Maria José, típico de casais que queriam menina e menino ao mesmo tempo e não aceitaram o resultado da ecografia.

Não há tarefa mais complicada do que definir o destino de um filho. A gestação tem nove meses de propósito, para garantir a reflexão.

Só que o excesso de tempo confunde. Serão conferidos mapa astral, numerologia, etimologia, livros de educação infantil, um excesso de referências até atingir um veredito.

Depois da trabalheira, da pesquisa e do incansável ibope, quando alguém próximo usa o nome pretendido, a mulher se vê roubada. Roubam sua bolsa d’água. O jeito é gritar por socorro.

Aliás, Socorro é um bom nome, não?






Crônica publicada no site Vida Breve
Colunista de quarta-feira
13/8/2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O QUE EU FAÇO?

Arte de Francis Picabia

Depois que virei palpiteiro amoroso, sou vítima dos esbarrões e dos conselhos a toda hora.

Por detrás de uma gentileza, pode vir um desabafo e aquela pergunta constrangedora ao final:

– O que eu faço?

Estou temendo cumprimentar na rua. Saúdo com “tudo bem?”, e o outro tem a audácia de replicar que não, emenda o que o vem afligindo e chora em meus ombros. Sinto que meu terno é um lenço de papel gigante. Hoje me escondo no costume de acenar com a cabeça e economizar entusiasmo.

Não sou terapeuta, não sou conselheiro, sou um escritor que observa a vida com fome e curiosidade e captura as contradições com facilidade. E só. Não tenho nenhum poder sobrenatural.

Mas, até me explicar, o desabafo já começou. Na dor, as pessoas falam rápido (a alegria, por sua vez, não precisa de muitas palavras).

Recebi uma carona na última semana. Era tarde, chovia, fazia frio, esperava um táxi que não chegava numa rua deserta, uma simpática mulher encostou e perguntou aonde ia.

– Petrópolis!

Ela sorriu:

– Estou indo para lá, vem?

Entrei no veículo, já arrependido. Como explicaria para minha esposa que tomei carona com uma estranha? Preventivamente, liguei o GPS do meu celular na hipótese de ela ser uma psicopata.

Ela nem esperou que comentasse sobre o tempo pavoroso naquela noite em Porto Alegre, desandou a narrar suas desventuras, o status nervoso de seu relacionamento, detalhou conversas, especificou suas expectativas.

– Sou casada há oito anos com um possessivo. “Não sou ciumento, sou possessivo”, diz ele, crendo que é beeem melhor... Eu tenho de obedecê-lo, me adequar a suas vontades e ser companheira com ZERO de reciprocidade!

Foi quando o painel digital de seu carro passou a piscar: anomalia de combustível.

– Visitar a minha família, frequentar a roda dos meus amigos, fazer os meus programas, nunca, sempre a vontade dele... Acabei me afastando de muitas pessoas queridas em função disso.

Foi quando o painel digital de seu carro passou a piscar: anomalia de air bag.

– Perdi minha essência, pois eu o sinto exatamente como um CHEFE! Inclusive eu brinco que sou sua secretária de luxo, pois ele está sempre me solicitando coisas.

Foi quando o painel digital de seu carro passou a piscar: anomalia de poluição.

– Ele não gosta de meu senso de humor, acaba incomodado por eu ser extrovertida e expansiva, me poda o tempo inteiro, odeia chegar aos lugares e notar que eu conheço metade do mundo e ele não. A impressão é que ele precisa me diminuir para brilhar.

Ao descer, ela me encarou, ansiosa:

– O que eu faço?

Só tive tempo de responder:

– Troca de carro!





Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 12/8/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°
17888

NÃO VOU MAIS ESCREVER

Arte de James Barry

Dizer não é dizer sim.

Quem diz “não vou mais” sempre vai fazer.

Não vou mais mentir.

Não vou mais sofrer.

Não vou mais jogar.

Não vou mais beber.

Não vou mais fumar.

Não vou mais trair.

Não vou mais errar.

Não vou mais amar.

"Não vou mais" é uma maneira de se convencer. Tem tudo para não acontecer.

O sujeito não está disposto a mudar, mas apenas se desculpar com o futuro. Pois o futuro é distante. O futuro não é agora.

Não é um ultimato, mas um adiamento.

Não é uma afirmação, mas uma negação.

Não vou mais não tem efeito legal. Expressa o contrário.

Não vou mais é uma saideira existencial.

Não vou mais é não consigo.

Não vou mais é não posso.

Não vou mais é se enganar.

Não vou mais é não enfrentar a dificuldade.

Não vou mais é apenas fugir do castigo.

Não vou mais, sonoramente, é "Não vou, mas".

Ouça meu comentário na manhã de terça-feira (12/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina:

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

SERIAL LOVER


Existe uma infidelidade mais secreta e menos evidente, que acontece depois do relacionamento. Só acontece depois. É uma traição póstuma, retardatária, residual. 

É quando você repete os mesmo lugares, os mesmos apelos, as mesmas confidências com outro. É quando você insiste em escrever e tecer declarações exatamente iguais.

É uma extorsão sentimental colocar um desejo para sua nova companhia como se fosse inédito e que já foi dividido com a anterior. 

Pois a paixão só é idêntica para quem não enxerga as diferenças. 

É como remanejar presentes, aproveitar alianças antigas. 

Você prova que não tem criatividade nenhuma, demonstra a maior apatia: refaz os passeios que já realizou, leva para os restaurantes que freqüentava, as baladas e festas conhecidas, reincide nos roteiros de viagem, destina sonhos e palavras já gastos, reemprega até os nomes aprovados para quando nascessem seus filhos.

Mudou a pessoa, mas não o seu jeito de seduzir. Mudou a pessoa, mas não sua rotina de amar. Mudou a pessoa, mas não seu script.

É uma melancólica sobreposição, desastrada colagem. 

Nem precisa cometer o ato falho de trocar o nome do atual pelo ex, porque estará revisitando atmosferas e cenários. Experimenta locações contaminadas por juras velhas. 

Não há sensação mais ingrata para seu namorado anterior ao perceber que era mais um. Um qualquer, nem um pouco especial. Um sósia de cenas românticas. Um dublê da adrenalina e dos feromônios.

Você oferece um passado usado sob o disfarce de futuro. Alcança aquilo que foi ensaiado com o antecessor. Não se dá o luxo de disfarçar, o trabalho de maquiar, colocar uma manta no mobiliário da memória. 

Recorrendo à fórmula fixa de história feliz, estabelece uma competição imaginária, anula a individualidade do seu par, apaga a invenção a dois e a costura por caminhos surpreendentes e inesquecíveis. 

Acredita em sua inocência porque ninguém comentará o assunto. Desfruta da tolerância dos garçons, dos colegas, dos amigos, dos parentes. É realmente um segredo com pequenas chances de ser revelado, porém a consciência não é boba e um dia se vinga. 

O que vive está longe de ser amor, é obsessão.


Publicado na Revista Isto É Gente
Junho de 2014 p. 48
Ano 14 Número 711
Colunista

O COLO DA LETRA

Arte de Dieter Borst

Na infância, desprezava a assinatura.

A vida vinha anônima, abundante. Não precisava ser alguém para ser feliz. Nem colocava autoria no desenho, em nenhum lugar. Aquilo que era mundo era meu.

Mas, aos 12 anos, minha mãe chegou com a tarefa que estragou o paraíso da impunidade.

– Treina sua assinatura que amanhã faremos sua carteira de identidade.

– Como assim?

– Deve assinar seu nome e depois não pode mais mudar.

Minha história pode ser dividida antes do RG e depois do RG. É como se fosse vítima de abrupta redução da maioridade penal.

A missão me paralisou. Como assinar e não mais mudar? Como oferecer uma forma para sempre?

Foi uma condenação assustadora. Eu me vi preenchendo cadernos de caligrafias diariamente até os 80 anos.

De uma hora para outra, restava-me criar uma personalidade. Um risco autoral. Assumir uma responsabilidade infinita.

Nem tinha noção por onde começar.

Lembrei da profissão de meu pai – escritor – e que ele autografava seus livros para os leitores. Tinha traquejo, experiência, jorrava seu nome com extrema facilidade e sem variação.

Tomei sua assinatura emendada e passei a imitar com o apoio de um papel vegetal.
A grafia paterna se movimentava como um desenho. Um ideograma.

Seu “c” era uma pista de skate. Seu “a” era igual ao “o”, só que vinha na contramão, da direita para esquerda. Seu “l” era uma árvore desfolhada. Seu “j” levantava um sol no acento. E o “r” se derramava como um escorregador.

Já não se assemelhava a uma assinatura, mas ao Parque Marinha do Brasil.

Por um breve momento, eu esqueci a tarefa e me divertia na praça de suas letras. Ficava na fila indiana com os colegas para descer nos brinquedos.

Inventava cenas e diálogos em meio ao sol da página em branco. Meu pai me empurrava no balanço. Meu pai disputava corrida da escada à lixeira laranja. Meu pai cuidava de mim com sua boina, seu casaco de couro e sua gargalhada alta e amiga.

Descobri que letra é feita para sonhar.

Assim que criei minha assinatura. Espantada. Grande. Estranha. Absoluto espelho do meu pai.
Exercitei ao longo da madrugada meu nome como se fosse uma continuação do nome do meu pai. Uma extensão de nossas pernas caminhando juntos. Inventei uma centopeia de tinta – minhas botas ortopédicas prosseguindo seus sapatos pretos de bico fino.

Não há nada mais íntimo do que ser um copista e segurar – com a imaginação – a mão de quem a gente admira.

Ao falsificar seu traço, me tornei verdadeiro.

Ao assinar, dou a mão ao meu pai.

Quando autografo minhas obras, a assinatura do meu pai está por baixo. É a minha sombra. É o meu apoio. É o meu fundo.

Ele vive me oferecendo colo por toda a eternidade das palavras.


  
Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 10/8/2014 Edição N°17886

15 CHAMADAS NÃO ATENDIDAS

Arte de Carlo Carrà

Não há maior loucura do que a bondade.

Se seu namorado ou namorada liga 15 vezes sem motivo (15 chamadas não atendidas enquanto trabalha), a reação esperada é xingar, chamar de psicopata, reclamar que deste modo desconfiado não tem como seguir a relação e até terminar o namoro.

Mas quem é bondoso desarma a loucura: - Ligou 15 vezes para mim? Que bom, significa que você sentiu muita saudade, significa que me ama muito, que você não consegue me esquecer nem por um minuto. Ai que bonito.

A pressão será entendida como demonstração de apego. A insegurança será entendida como preocupação apaixonada. A ansiedade será entendida como urgência de se ver.

Aquele ou aquela que telefonou 15 vezes ficará em estado de choque diante da compreensão de sua carência. Nunca mais vai ligar com medo da reação.

Vale para tudo. Na hora da cobrança, não compre briga, diga como é importante ter alguém para nos lembrar de nossos defeitos.

Não há maior loucura do que o amor.

Ouça meu comentário na manhã de sexta-feira (8/8) na Rádio Gaúcha, programa Gaúcha Hoje, apresentado por Antonio Carlos Macedo e Jocimar Farina: